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"NOVOS ADVOGADOS E GRANDES ESCRITÓRIOS"
Carlos Roberto Faleiros Diniz
10/11/2004
O início e o estabelecimento de qualquer profissão é uma tarefa bastante árdua. Não importa se trate de médico, dentista, engenheiro, advogado ou qualquer outro ofício: o jovem que pretende iniciar-se na carreira escolhida deve ter claro que passará por dificuldades e deve enfrentá-las com coragem, estudo e dedicação.

A situação do novo bacharel, que se inicia nos quadros da advocacia, não poderia ser diferente. Muitas vezes, esses novos bacharéis já foram iniciados nos mistérios da advocacia através de estágios profissionais iniciados no quarto e quinto anos da Faculdade de Direito. E assim, tão logo obtém a inscrição nos quadros da Ordem, correm céleres para os grandes escritórios em busca de uma vaga como advogado empregado, advogado júnior, trainee, ou outros cargos com outras denominações.

Uma vez inscritos, e depois de terem alcançado a tão almejada vaga de advogado no grande escritório, iniciam sua carreira profissional no seio da empresa[1]. Os jovens advogados, portanto, desconhecem àquela advocacia antiga, artesanal e personalizada de outrora. Sua realidade é outra. Tomam contato com a profissão envolvendo-se com uma instituição da advocacia totalmente renovada, modificada pelas nuances de seu tempo, sem o ânimo pessoal que a caracteriza.

Isso é muito claro de se ver, quando se traz o exemplo de escritórios de advocacia dos dias de hoje. Normalmente têm natureza de Sociedade de Advogados (EAOAB, art. 20 e ss.) e apresentam-se como grandes firmas de exercício do Direito. Aliás, escritórios existem, não apenas em grandes centros, como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, mas também em cidades de médio porte como Campinas e Ribeirão Preto, que chegam a albergar de cem a duzentos advogados, até mais.

É nesse novo modelo empresarial da advocacia que o jovem bacharel se insere. Mais que isso: é esse novo modelo empresarial de advocacia que ele conhece, e no qual ele pretende se inserir. Uma vez aceito nos quadros desses grandes escritórios, os novos profissionais são preparados e treinados para atender a um determinado tipo de demanda, e passam então a atender à clientela que acode ao escritório-empresa.

Vários são os fatores que levam o novo profissional a esse caminho. Um desses fatores, sem dúvida, é a formação que o estudante recebe nos bancos acadêmicos. O ensino do Direito tem se mostrado cada vez mais superficial, genérico, e de conteúdo retrógrado, voltado para questões do século passado, e não para as novas diretrizes do mundo do Direito moderno e globalizado. Daí porque o estudante não se acha suficientemente preparado para enfrentar as questões jurídicas, práticas e administrativas necessárias à administração de seu próprio escritório de advocacia, o que o leva às carreiras públicas ou à fixação desde logo num grande escritório.

Um outro problema decorrente dessa mesma crise da formação jurídica é o que diz respeito ao excessivo número de faculdades de Direito que são abertas dia após dia. São muitas instituições de cunho meramente argentário, que não preparam o aluno para enfrentar as questões do dia-a-dia forense, despejando no mercado de trabalho, profissionais, completamente, despreparados para a advocacia. Isso faz com que as cidades, notadamente do interior do estado de São Paulo, sejam incapazes de acolher e sustentar o grande número de bacharéis que são lançados no mercado ano a ano.

Somados esses dois fatores a outros igualmente relevantes como as sucessivas crises econômicas e do mercado de trabalho, aliado ao número crescente de profissionais não ligados ao Direito que exercem atos privativos de advogado, além de outras causas – que por ora não nos cabe discutir – levam o novo profissional da advocacia a abandonar aquele sonho, tantas vezes acalentado nos primeiros anos da Faculdade, de montar seu próprio escritório e atuar como profissional liberal.

Daí porque o papel dos advogados que já estão inseridos no mercado da advocacia há muito tempo não pode ser outro senão alertar esses jovens sobre o risco que correm atuando como meros empregados dessas grandes firmas que são os escritórios de advocacia.

É preciso resgatar a tradição da profissão, a advocacia personalizada, a prática do advogado artesão, que elaborava suas peças como verdadeiras obras primas do mundo jurídico.

É preciso, também, que os jovens profissionais, principalmente os estudantes de Direito, que ainda não se viram forçados a desfazer-se de seus planos de seguir a carreira de advogado, exijam das faculdades de Direito o preparo completo e suficiente para exercerem a advocacia sem a necessidade de submeterem-se aos trabalhos dos grandes escritórios. As faculdades têm a obrigação de formar os jovens e prepará-los para o exercício da advocacia, e os novos profissionais têm o dever de exigir um ensino que o direcione a esse caminho, se esta for a sua vocação.

Ou seja, apenas através de trabalho constante, desde o primeiro ano da graduação em Direito, e estudo, no sentido de apreender da melhor forma o que o instrumentário jurídico pode oferecer é que esse estudante se tornará um profissional que se sabe completo e capaz de enfrentar qualquer grande escritório, eis que ao seu lado sempre andará o respeito, a ética e a certeza do trabalho bem realizado.

[1] Falamos aqui sobre empresa uma vez que no nosso entender esses grandes escritórios, despersonalizados apresentam-se como verdadeiras empresas de prestação de serviços jurídicos.
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